Estava Ela a lamentar pelos cantos chuvosos no caminho de casa, e já se via os sapatos molhar. Felizmente carregava sempre consigo seu guarda-chuva. Mesmo assim odiava carregá-lo, tinha esperanças que um dia dependeria da proteção de outro. Ela morava sozinha e sentia falta de companhia. Mesmo correndo de um telhado a outro, seu cabelo liso esvoaçava, a roupa parecia passada, mas o sorriso quase não se via na cara. Embaixo de um toldo azul listrado esbarrou Nele, Ele tinha sorriso de turista. Vestia bermuda e uma camiseta amarrotada.
Ela sorria com os lábios fechados e Ele mostrando os dentes, ambos sentiam-se sozinhos:
- Opa! Desculpa - Ela disse
- Ah, tudo bem - e antes que Ela se virasse perguntou - Sabe onde posso comprar um guarda-chuva, aqui nas redondezas?
- Hum, comprei o meu a duas quadras daqui! - enquanto chacoalhava seu guarda-chuva multicor para escorrer a água
- Certo! A exatamente duas quadras? - indagou
- Exatamente duas quadras - Ela confirmou
- E ao chegar na segunda quadra, o que encontrarei?
- Humm, é verdadeiro que encontre uma sapataria, uma banca de jornal, um desses mercadinhos baratos onde se encontra muitos produtos de limpeza e poucas frutas frescas e guarda-chuvas! - Ela era conhecida pela sua paciência
- O guarda-chuva encontro no mercadinho ou em algum outro estabelecimento denominado Guarda-chuvas? - Ele parecia confuso, e assim era conhecido. Apesar de bom rapaz.
- O guarda-chuva está assim entre o mercadinho e a lanchonete do Seu Braga, - refletiu e gesticulando explicou - quando achar a banca de jornal fique de costas para ela e olhe reto...
E interrompendo Ele disse - Está lá!
- Não, olhando reto está a sapataria, você pode ir lá conversar com o Braga e ele te aponta os guarda-chuvas, ou você mesmo poderá olhar para a esquerda quando estiver de frente para o Braga! - A simpatia em pessoa, apenas uma mulher de amores desafortunados
- Seu Braga, a lanchonete?
- o Braga da sapataria, eles são pai e filho! - falou ajeitando o guarda-chuva aberto como um escudo para protegê-los da água dos carros que passavam
- Braga I e Braga II?
- Braga e Braga Filho!
- Estranho, na minha família os filhos de mesmo nome que o pai usam primeiro e segundo.
- Mesmo o pai? - perguntou
- O pai já vem de carteira, com o primeiro no nome.
- Mas o filho que será pai, será Pai II - Ela questionou
- Exceto o filho de pai sem primeiro no nome - e pegando uma caderneta - veja, tem uma escala!
- Nossa, que família organizada! - via-se uma pontinha de sorriso borbulhando no canto dos lábios
- As famílias na minha cidade são assim, todas se organizam. Aos domingos fazíamos bolos. - Os olhos Dele brilharam
- Não fazem mais? - mostrou-se interessada
- Sou órfão! - Esfregando a ponta dos pés no chão
- Sinto muito!
Houve um silêncio. Ele pensou em continuar seu trajeto e Ela em procurar um buraco para enfiar a cabeça.
- Bolos são gostosos redondos - Ela disse ajeitando os cabelos brilhantes
- A sua família, como é? - perguntou curioso
- Minha família organizava casamentos - Ela vibrou
- Não organiza mais? - questionou desconfiado
- Órfã! -disse Ela lamentando
- Sinto muito! Disse Ele sentindo uma pontada dentro dos olhos que enchiam de lágrimas. Ele era conhecido também pela sua sensibilidade.
O silêncio não durou muito.
- Hum, casada suponho? - perguntou corando as bochechas
- Não. Eu arranjo casamentos! Vestidos, mesas... essas coisas. - disse percebendo o rosto ficar vermelho
- Bolos são fundamentais em casamentos - Balançava a cabeça admitindo a semelhança entre eles
- E você, casado? - Perguntou desviando o olhar
- Não! Solteiro. Mas já fiz bolos para casamentos. - comentou tentando olhar nos olhos Dela
- Mas me diga, o pai administra uma lanchonete e o filho uma sapataria?
- Ambos queriam trabalhar na praia - Ela abaixou a cabeça olhando os sapatos
- Ora, e porque trabalham no centro da cidade?
- A praia aqui chove muito, é difícil limpar roda de barraca suja de lama. - Ela lamentou
- Hum!
- Então escolheram cada um o que queriam, eles não vendem muito. O que vende por aqui é guarda-chuva! - Ela sorriu
- Falando nisso, você sabe onde posso comprar um, aqui nas redondezas?
- Já lhe disse, quando avistar a sapataria olhe mais a esquerda, assim uns três ou quatro estabelecimentos a esquerda, e lá está. Uma porção de guarda-chuvas para você escolher. De cabos grandes e pequenos, cores vibrantes ou neutras.
- Certo! Obrigado! - agradeceu olhando firme em seus olhos castanhos
- De nada! - mas antes que Ele pudesse se virar, perguntou - Você não quer uma carona, no meu guarda-chuva, para não se molhar?
Ele olhou para o céu, as nuvens se abriam e já se via os raios do Sol:
- Não está mais chovendo!
- Hum, tudo bem, então. Adeus! - e Ela começou a se afastar.
- Espere! Você, eu... - Ele tossiu disfarçando o nervosismo. O sorriso dela duplicava de tamanho - eu ainda não sei exatamente onde encontrar os guarda-chuvas, então creio que...
- Eu possa lhe acompanhar! - e ela completou - Nos tempos de hoje, nunca se sabe quando iremos precisar de um.
Ela fechou o seu guarda-chuva para nunca mais abrir. E caminharam juntos!