domingo, 1 de novembro de 2009

A fuga

A realidade que eu pertencia,
fugiu entre os dedos e restou a nostalgia.
Foi embora e deixou a alma lisa
Deixou em mim a essência
Sobrou em ti, a covardia!

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Me diga


Qual
a cor do seu balão ?

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Morde e assopra

Do que é feito o céu,
Além de belas nuvens de algodão?
É feito daquilo que escorre da nossa sujeira, da nossa pretensão.
É feito de chuva e muito pouco de sabão.

Do que é feito o mar,
Além de ondas cansadas?
É feito, também, de espuma sufocante.
É feito de pó, máscara e contradição.

Do que é feito a terra,
Além de marrom?
É feita muito mais de sorte e muito menos de vida.
É feita de mordidas rancorosas e sopros de compaixão.

Machuca, e assopra.

Como fizemos tanto frio,
Além de ligar na tomada?
Fizemos com o medo de passar calor. E por isso congelamos.
Cada um dentro de si.

Como inventamos tantas histórias,
Além daquilo que consta nos livros?
Aprendemos a jogar já na escola.

Por que apagamos as cores,
e gostamos de cinza?
Dizem por ai, que felicidade é uma sina.

Quanto tempo se perde perdendo tempo,
Além do que marca o relógio?
Tempo não é questão de vontade, é praticidade.
Indivíduo não escolhe tempo. Indivíduos sim.
Mas o tempo escolhe quem quer.

Do que é feita a riqueza,
Além de ouro e peso?
É feita de papeis, apostas e marcas d'agua.
É feita, mesmo, de diferenças. Negativo e positivo.

Machuca, e assopra.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Quando necessário

Parece que a garganta dilata
Os sentidos se encontram
E a respiração estabelece um ritmo,
preciso e inconfundível.
É quando o corpo, ereto, faz uma pausa
e sente o alívio.

O remédio já desceu pela garganta.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Apague!

Estou dentro, está fora
Me coloco em pé como quiseres
E logo esqueço o agora,
não importa o que fizeres

Insiste em apagar
lembranças, casos e fracassos
Continuamos a lamentar
o vai e vem do compasso

Você conhece, nunca viu
Quem antes estava em contato
com qualquer coisa que sentiu
Encerramos, a cada dia, um novo ato

Era tanto, agora é nada
Permança girando a roda
Aos meus amigos, a lista está para ser apagada
Continuamos humanizando a poda

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Floresta

Toda carnificina que te rodeia
Conflitando em qualquer caso
Toda inveja que nos permeia

Mas todo predador tem seu passado

Vagamente recordo
toda hora que fiz.
Toda história que por ai diz

Mas não se apresse, todo predador tem seu passado

A mobilidade extrema
continua enroscada em cipós,
soletrando sempre a mesma

Mas ouça o que digo, todo predador tem seu passado

Procuramos a trilha,
e no meio dela, exercitamos a partilha
rodeados por cobras

Mas todo predador tem seu passado

Então, depois da revolta
fingimos sorrisos
e continuamos a escolta

Mas espere, toda presa tem seu passado



quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Guarda-chuva!

Estava Ela a lamentar pelos cantos chuvosos no caminho de casa, e já se via os sapatos molhar. Felizmente carregava sempre consigo seu guarda-chuva. Mesmo assim odiava carregá-lo, tinha esperanças que um dia dependeria da proteção de outro. Ela morava sozinha e sentia falta de companhia. Mesmo correndo de um telhado a outro, seu cabelo liso esvoaçava, a roupa parecia passada, mas o sorriso quase não se via na cara. Embaixo de um toldo azul listrado esbarrou Nele, Ele tinha sorriso de turista. Vestia bermuda e uma camiseta amarrotada.
Ela sorria com os lábios fechados e Ele mostrando os dentes, ambos sentiam-se sozinhos:

- Opa! Desculpa - Ela disse
- Ah, tudo bem - e antes que Ela se virasse perguntou - Sabe onde posso comprar um guarda-chuva, aqui nas redondezas?
- Hum, comprei o meu a duas quadras daqui! - enquanto chacoalhava seu guarda-chuva multicor para escorrer a água
- Certo! A exatamente duas quadras? - indagou
- Exatamente duas quadras - Ela confirmou
- E ao chegar na segunda quadra, o que encontrarei?
- Humm, é verdadeiro que encontre uma sapataria, uma banca de jornal, um desses mercadinhos baratos onde se encontra muitos produtos de limpeza e poucas frutas frescas e guarda-chuvas! - Ela era conhecida pela sua paciência
- O guarda-chuva encontro no mercadinho ou em algum outro estabelecimento denominado Guarda-chuvas? - Ele parecia confuso, e assim era conhecido. Apesar de bom rapaz.
- O guarda-chuva está assim entre o mercadinho e a lanchonete do Seu Braga, - refletiu e gesticulando explicou - quando achar a banca de jornal fique de costas para ela e olhe reto...
E interrompendo Ele disse - Está lá!
- Não, olhando reto está a sapataria, você pode ir lá conversar com o Braga e ele te aponta os guarda-chuvas, ou você mesmo poderá olhar para a esquerda quando estiver de frente para o Braga! - A simpatia em pessoa, apenas uma mulher de amores desafortunados
- Seu Braga, a lanchonete?
- o Braga da sapataria, eles são pai e filho! - falou ajeitando o guarda-chuva aberto como um escudo para protegê-los da água dos carros que passavam
- Braga I e Braga II?
- Braga e Braga Filho!
- Estranho, na minha família os filhos de mesmo nome que o pai usam primeiro e segundo.
- Mesmo o pai? - perguntou
- O pai já vem de carteira, com o primeiro no nome.
- Mas o filho que será pai, será Pai II - Ela questionou
- Exceto o filho de pai sem primeiro no nome - e pegando uma caderneta - veja, tem uma escala!
- Nossa, que família organizada! - via-se uma pontinha de sorriso borbulhando no canto dos lábios
- As famílias na minha cidade são assim, todas se organizam. Aos domingos fazíamos bolos. - Os olhos Dele brilharam
- Não fazem mais? - mostrou-se interessada
- Sou órfão! - Esfregando a ponta dos pés no chão
- Sinto muito!

Houve um silêncio. Ele pensou em continuar seu trajeto e Ela em procurar um buraco para enfiar a cabeça.

- Bolos são gostosos redondos - Ela disse ajeitando os cabelos brilhantes
- A sua família, como é? - perguntou curioso
- Minha família organizava casamentos - Ela vibrou
- Não organiza mais? - questionou desconfiado
- Órfã! -disse Ela lamentando
- Sinto muito! Disse Ele sentindo uma pontada dentro dos olhos que enchiam de lágrimas. Ele era conhecido também pela sua sensibilidade.

O silêncio não durou muito.

- Hum, casada suponho? - perguntou corando as bochechas
- Não. Eu arranjo casamentos! Vestidos, mesas... essas coisas. - disse percebendo o rosto ficar vermelho
- Bolos são fundamentais em casamentos - Balançava a cabeça admitindo a semelhança entre eles
- E você, casado? - Perguntou desviando o olhar
- Não! Solteiro. Mas já fiz bolos para casamentos. - comentou tentando olhar nos olhos Dela

- Mas me diga, o pai administra uma lanchonete e o filho uma sapataria?
- Ambos queriam trabalhar na praia - Ela abaixou a cabeça olhando os sapatos
- Ora, e porque trabalham no centro da cidade?
- A praia aqui chove muito, é difícil limpar roda de barraca suja de lama. - Ela lamentou
- Hum!
- Então escolheram cada um o que queriam, eles não vendem muito. O que vende por aqui é guarda-chuva! - Ela sorriu
- Falando nisso, você sabe onde posso comprar um, aqui nas redondezas?
- Já lhe disse, quando avistar a sapataria olhe mais a esquerda, assim uns três ou quatro estabelecimentos a esquerda, e lá está. Uma porção de guarda-chuvas para você escolher. De cabos grandes e pequenos, cores vibrantes ou neutras.
- Certo! Obrigado! - agradeceu olhando firme em seus olhos castanhos
- De nada! - mas antes que Ele pudesse se virar, perguntou - Você não quer uma carona, no meu guarda-chuva, para não se molhar?

Ele olhou para o céu, as nuvens se abriam e já se via os raios do Sol:
- Não está mais chovendo!
- Hum, tudo bem, então. Adeus! - e Ela começou a se afastar.
- Espere! Você, eu... - Ele tossiu disfarçando o nervosismo. O sorriso dela duplicava de tamanho - eu ainda não sei exatamente onde encontrar os guarda-chuvas, então creio que...
- Eu possa lhe acompanhar! - e ela completou - Nos tempos de hoje, nunca se sabe quando iremos precisar de um.

Ela fechou o seu guarda-chuva para nunca mais abrir. E caminharam juntos!